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| Reverência na Igreja Mor |
Olá, bom dia a todos, para quem não me conhece, meu nome é Kichio Ishii. Hoje fui convidado para conduzir a palestra do mês de Julho.
Gostaria de falar de um assunto que tenho pensado há algum tempo e talvez seja o principal motivo pelo qual todos estamos aqui hoje, estou falando da Fé… Hoje queria refletir sobre esta palavra, andei pesquisando um pouco e gostaria de compartilhar e peço a atenção de todos por alguns minutos.
No dia a dia, usamos a palavra fé de forma automática, mas seu significado é bastante interessante, a origem também é muito legal, a palavra fé se origina do latim Fides, desta palavra se derivou em várias outras que conhecemos no nosso dia a dia como: fidelidade, fiel, fidelizar, no mundo das finanças e bens já devem ter ouvido: fiduciário, fiança, fiador, e quando algo é sigiloso, um segredo ou algo íntimo, utilizamos as palavras: confidencialidade, confidencial. A palavra está muito relacionada à credibilidade e previsibilidade.
Basicamente a fé é crer, acreditar em algo, ter certeza. Mas, a fé tem um sinônimo bastante forte e poderoso que é a confiança. Em latim é Confidere, que significa "ter total confiança" ou "depositar grande fé".
Ter fé é, essencialmente, o sentimento de depositar confiança em algo ou em alguém. E a confiança precisa estar presente em tudo: na família, nas amizades, no trabalho e também no espaço público. Não pode ser exigido ou comprado, é um processo, uma construção nos relacionamentos.
Exatamente por ser um sentimento poderoso é que é imperativo que ela seja usada de forma muito responsável, vemos diversos líderes usando a fé de forma a manipular as pessoas, é preciso muita integridade para utilizar a fé.
Sobre a confiança, gostaria de contar uma história do meu pai. Meu Pai nasceu no Japão e ainda quando jovem aprendeu o ofício de relojoeiro trabalhando numa fábrica de relógios, subsidiária da Seiko. Tem uma história que o pai dele meu avô oferendou a igreja todo o salário de 1 ano dele desta empresa e o meu pai não reclamou, Confiou no julgamento do pai e continuou trabalhando sem ganhar nada. Mais tarde ele imigrou ao Brasil, inicialmente veio para Bauru trabalhar na lavoura, depois de um tempo se mudou para Mogi das Cruzes. Trabalhou numa indústria chamada Howa, mais tarde resolveu empreender e abrir uma oficina de relojoaria na própria casa, no início teve muita dificuldade e ia de bicicleta na vizinhança para oferecer o serviço, contudo, relógios eram um bem de valor na época e as pessoas não confiavam em deixar com um desconhecido, assim meu pai deixava a sua bicicleta como garantia, para levar o relógio para consertar. Mais tarde depois de muito esforço conseguiu adquirir uma Loja já existente em Mogi das Cruzes e sabem qual era o nome desta loja, por coincidência ela se chamava AConfiança.
Quem se interessar em saber mais sobre esta história vocês podem ler no livro 20 anos de Tsu Hakuryu.
Na fé existe um paradoxo interessante. Certo dia meu filho chegou da escola e disse: “Papai, minha professora de ciências falou que tudo que não podemos provar cientificamente é considerado fé”.
Ela está certa. A ciência precisa de prova, evidência. Se não conseguimos comprovar algo pela lógica e pelo método, isso é apenas suposição.
Mas aí está o paradoxo: para a fé existir, ela não pode ter prova imediata. Se você consegue provar algo cientificamente ou matematicamente ou ver com os próprios olhos, a fé deixa de existir e dá lugar à verificação.
Vou dar exemplos:
Se alguém diz que está chovendo e você vai até a janela conferir, isso não é confiança. É verificação, conferência.
Se num relacionamento você sente necessidade de olhar o celular do parceiro para buscar mensagens, isso não é confiança. É desconfiança, insegurança.
A verdade é que é impossível viver a vida sem confiança.
Pensem na viagem ao Japão que muitos de nós estamos planejando. Apesar de passarmos meses preparando tudo. Mas quando entramos no avião, não verificamos a manutenção da aeronave, não conferimos quem é a tripulação, não temos o controle sanitário da comida. Não temos controle sobre conflitos no Oriente Médio ou sobre as condições climáticas para voo de aeronaves. Nós apenas sentamos na poltrona e confiamos.
Percebemos que não controlamos a maior parte do que acontece na nossa vida.
O mesmo vale para o banco. Trabalhamos a vida inteira, depositamos nossas economias e recebemos em troca apenas números numa tela ou um pedaço de papel. Temos que confiar que o dinheiro está lá.
Lembro de uma cena de uma série sobre narcotráfico. O traficante tinha montanhas de dinheiro e precisava enviá-lo para os paraísos fiscais. Mesmo depois do depósito feito, a desconfiança dele era tão grande que ele viajou até o outro país, entrou no banco e exigia ver as cédulas físicas. Ele não entendia o sistema de crédito, o sistema fiduciário como disse no início. Só acreditava no que podia ver e tocar.
Muitas vezes agimos assim com a nossa espiritualidade. Queremos ver para crer. Mas talvez a verdadeira fé seja o oposto: é crer para ver.
Tem uma passagem na vida de Oyassama em que uma certa pessoa indagou a Oyassama. “Existem muitas pessoas neste mundo que dizem que Deus não existe. Como é Deus?”
Oyassama explicou da seguinte maneira:
"Se disserdes que existe, existe; se disserdes que não existe, não existe; pois Deus é a imagem que se vê na graça concedida ao pedido realmente sincero."
Confesso que, quando ouvi pela primeira vez, achei a resposta insuficiente. Esperava uma prova concreta, cabal. Hoje entendo a sabedoria dessas palavras.
A relação com Deus é de confiança e de fé. É uma certeza sem verificação. É descansar na confiança, porque não controlamos tudo que acontece no nosso cotidiano e necessitamos sentir seguros e de estarmos amparados.
A fé se transforma principalmente em momentos de crise, seja de saúde ou circunstancial. A fé coloca a crise em perspectiva, porque reconhecemos que não temos domínio de boa parte da vida. A fé ajuda a encontrar sentido na dor, compreendendo que o sofrimento faz parte de um processo de amadurecimento e transformação, dentro de um contexto maior, e diminui o impacto do sofrimento.
Era isso que eu tinha a dizer hoje. Que hoje possamos sair daqui exercitando menos a nossa necessidade de controle e mais a nossa capacidade de confiar.
Muito obrigado.
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